ORGANIZAÇÃO COMUNITÁRIA E PARTICIPAÇÃO SOCIAL

A partir deste eixo tem-se como perspectiva fortalecer o associativismo comunitário e incentivar a criação de espaços e processos participativos na definição de projetos e ações a serem desenvolvidas nas comunidades.

[read more=”Leia mais” less=”Recolher”]Uma das principais estratégias nesse eixo compreende a criação dos comitês mobilizadores. Através destes grupos, o Programa tem como objetivo promover a autonomia das comunidades na gestão das ações locais dos projetos e formar lideranças e multiplicadores das atividades de formação e assessorias desenvolvidas. Outra iniciativa importante, neste eixo, é o estímulo à identificação de canais de participação e encaminhamento das reivindicações dos moradores por direitos, e da proposição de modelos alternativos de desenvolvimento, em programas e políticas públicas, através da participação em conferências, fóruns, conselhos e encontros.

Neste aspecto, o COEP também tem canalizado estas principais reivindicações e atuado como articulador para viabilizá-las. São exemplos deste processo as ações desenvolvidas nas comunidades a partir dos seguintes programas governamentais: Programa um Milhão de Cisternas, do Ministério do Desenvolvimento Social em parceria com a Articulação do Semiárido Brasileiro – P1MC; Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel, para instalação dos telefones públicos; pontos de presença do Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac), do Ministério das Comunicações, para implantação de telecentros; e o Programa Arca das Letras, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que promove a criação de bibliotecas comunitárias.

A participação dos jovens e das mulheres na composição dos comitês mobilizadores, conforme orientação do Programa, tem possibilitado a emergência de agendas específicas relativas à afirmação de direitos e abordagens de aspectos relacionados a gênero e juventude no  planejamento de suas atividades.

Os jovens vêm desempenhando um papel fundamental nos debates relativos às alternativas de desenvolvimento e à permanência da juventude nestes territórios, sendo um segmento de extrema relevância nos aspectos que envolvem a sustentabilidade das atividades produtivas e as ações de segurança alimentar na região.

Neste sentido, a Rede Comunidades Semiárido atua como um espaço de trocas de informações e de articulação de iniciativas desenvolvidas através do protagonismo da juventude das comunidades que integram a rede. São realizados, anualmente, encontros microrregionais e regionais voltados à discussão de modelos de gestão, avaliação de atividades e proposição de iniciativas comuns a serem implantadas na região.

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SOBERANIA ALIMENTAR E GERAÇÃO DE TRABALHO E RENDA

As tecnologias sociais de geração de trabalho e renda implantadas possuem forte correlação com as iniciativas voltadas à garantia da soberania e da segurança alimentar das populações do Semiárido.

[read more=”Leia mais” less=”Recolher”]Assim, têm por objetivo incentivar a adoção de sistemas produtivos que promovam a autonomia dos pequenos produtores, além da produção de alimentos saudáveis, através da utilização de técnicas e recursos que preservem as condições de biodiversidade locais.

Diagnóstico socioeconômico de demandas e potencialidades 
O diagnóstico tem como objetivo identificar necessidades e potencialidades locais para subsidiar propostas de formação, assessorias e implantação de tecnologias sociais. Através deste diagnóstico são desenvolvidos os diferentes projetos de geração de renda nas comunidades. Este documento também é a base para se estabelecer dinâmicas de avaliação das atividades desenvolvidas ao longo do Programa.

Produção de mamona e algodão
As primeiras ações desenvolvidas pelo Programa foram voltadas para revitalização e implantação de estratégias de agregação de valor aos cultivos do algodão e da mamona nas comunidades. Apesar dos agricultores possuírem conhecimentos e técnicas tradicionais no manejo e cultivo destes produtos, estas lavouras estavam praticamente extintas na região, quando o COEP iniciou suas atividades nesses locais, em 2000. As atividades de formação e assessoria técnica a estes cultivos são realizadas através da criação de unidades demonstrativas, onde aos saberes tradicionais são agregados conhecimentos e técnicas de manejo e plantio que evitam o surgimento de pragas e doenças. As unidades demonstrativas também possibilitam a produção de sementes a serem distribuídas aos agricultores para iniciar o plantio das safras.

Desta forma, grande parte da produção tem sido realizada de forma orgânica. O COEP também atuou na estruturação de polos regionais para produção agroecológica de algodão e de mamona, cultivados de forma consorciada com outras culturas, empregando técnicas de preservação do solo, recursos hídricos e biodiversidade local. Além da importância em assegurar uma diversidade produtiva para o abastecimento dos mercados locais e regionais, a agricultura agroecológica tem custos de produção menores, se comparada à produção orgânica realizada através de monocultivos.

O processo de revitalização da cultura do algodão também envolveu o estímulo à criação de redes e circuitos produtivos, integrando etapas de produção e beneficiamento desta lavoura. Foram instaladas miniusinas em polos de comunidades, que permitem a separação da pluma e do caroço. Estes equipamentos também fazem o enfardamento da pluma, para comercialização nas indústrias da região ou para envio a cooperativas e empreendimentos localizados em outros estados. O caroço é utilizado para ração animal e pode ser comercializado também.

O COEP incentiva a adoção de estratégias coletivas para o beneficiamento e a comercialização desta produção, o que tem possibilitado a eliminação de atravessadores e condições mais favoráveis para a venda das safras. Os projetos desenvolvidos neste eixo também viabilizaram a implantação, em algumas comunidades, de uma terceira etapa da cadeia produtiva do algodão com a instalação dos teares. No incentivo à cultura do algodão percebe-se a demanda pela ampliação das etapas de maior agregação de valor, tais como a confecção dos produtos finais e o acesso direto aos consumidores. Como etapa futura, o Programa pretende desenvolver metodologias para implantação de processos de certificações participativas da produção na cadeia produtiva do algodão.

Caprinocultura e ovinocultura
As criações de caprinos e ovinos são desenvolvidas tradicionalmente pelos moradores da região do semiárido nordestino como atividades voltadas, sobretudo, para a subsistência destas populações. As ações do COEP, no incentivo a esta tecnologia, têm como objetivo potencializar a geração de renda para as famílias através do melhoramento genético destes rebanhos. Dessa forma, o Programa promove a distribuição de lotes de três ou seis matrizes (fêmeas), sem raça definida, às famílias. É distribuído também um reprodutor de raça (Puro de Origem – PO) a cada 24 matrizes recebidas, que fica sob a responsabilidade da associação comunitária, para o cruzamento com essas matrizes. Quando as famílias beneficiárias dos primeiros lotes de matrizes atingem o número de fêmeas recebidas inicialmente, devem repassá-las às associações comunitárias, para que outras famílias sejam contempladas. Desta forma, progressivamente, toda a comunidade pode ter acesso a esta iniciativa. Também integra a reaplicação desta tecnologia a construção de apriscos para abrigar os reprodutores; a instalação de forrageiras, para a trituração de plantas utilizadas na alimentação dos rebanhos; e a instalação de máquinas para a confecção de telas de arame, usadas para cercar as áreas de criação dos animais. Esta tecnologia demonstra grande potencial de difusão e apresenta resultados positivos na obtenção de melhores preços para venda dos animais, em virtude da qualidade genética desses rebanhos.

Miniprojetos geradores
Outra iniciativa importante desenvolvida neste eixo é a instalação de miniprojetos geradores em unidades demonstrativas, com o objetivo de introduzir novas atividades produtivas ou potencializar cultivos e produções já existentes nas comunidades. São realizadas visitas para acompanhamento e assistência técnica, e assessorias para a organização de grupos produtivos, estratégias de comercialização e gestão dos espaços físicos e dos equipamentos. Os miniprojetos geradores têm permitido, sobretudo, a introdução de etapas de benefi ciamento de gêneros produzidos nas comunidades e assentamentos, agregando valor e elevando a renda dos moradores.[/read]

CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO, MEIO AMBIENTE E MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Um fator relevante a ser considerado nas estratégias de convivência e preservação das características ambientais do bioma Caatinga se refere aos impactos das projeções relativas à variabilidade climática sobre a região.

[read more=”Leia mais” less=”Recolher”]No âmbito do Grupo de Trabalho Mudanças Climáticas, Pobreza e Desigualdades (coordenado pelo COEP), do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, foram realizados estudos que demonstram a possibilidade de aumento de temperatura variando entre 1,5ºC a 2ºC, e o prolongamento dos períodos de seca e estiagem. Espera-se que tal variação tenha impacto, sobretudo, sobre a produção agrícola, ocasionando perdas de safras e impossibilitando o cultivo de algumas espécies que não resistiriam a esta variação de temperatura. Há também previsões que indicam impactos na substituição da vegetação nativa da Caatinga por plantas típicas de regiões áridas.

Este cenário implica desafios à implantação de tecnologias de adaptação e convivência com o Semiárido, que permitam ampliar os estoques de armazenamento de água para consumo das famílias e uso nas atividades produtivas, durante períodos de seca prolongada.

Outra medida implantada nesse eixo se refere ao desenvolvimento de ações educativas e de recuperação da biodiversidade nas comunidades, influenciando a adoção de práticas preservacionistas, e que contribuam para a redução dos índices de desmatamento e queimadas.

Implantação de barragens subterrâneas em áreas de produção coletivas
A barragem subterrânea é uma tecnologia social instalada através da interrupção do fluxo subterrâneo de água, durante o período chuvoso. A construção da barragem é feita por meio de corte transversal do solo, onde é aplicada uma lona plástica, de modo a reter a água, tornando uma parte do terreno mais úmida. Nesta área é possível desenvolver diversos cultivos, mesmo em período de seca.

O aumento do estoque de água nas propriedades, através da construção das barragens subterrâneas, possibilita o planejamento para um melhor aproveitamento de seu uso, contribuindo para a segurança alimentar e a geração de renda para as famílias agricultoras. Houve um aumento da quantidade, qualidade e diversidade dos produtos, tais como: hortaliças, frutas, batata doce, milho, feijão, capim, arroz, entre outros.

Cisternas de placas para captação de água das chuvas para consumo das famílias
A cisterna de placas é uma tecnologia instalada nas propriedades familiares, que permite o armazenamento de água das chuvas, através de calhas colocadas nos telhados das residências e levadas até esses reservatórios para uso no período de seca. A quantidade armazenada é sufi ciente para garantir água potável para uma família de seis pessoas, se utilizada de forma adequada (beber e cozinhar), por oito meses.

Algumas cisternas foram construídas com placas e outras com anéis de concreto, possuindo uma capacidade de aproximadamente 16 mil litros. Além da instalação das cisternas, as famílias também receberam cursos em gerenciamento de recursos hídricos, cidadania e convivência com o Semiárido.

Cabe destacar que essa ação prevê a qualificação de moradores das comunidades e assentamentos para a construção desse equipamento,. Dessa forma, eles se tornam aptos a construir outras cisternas, podendo ser remunerados para este fim, como vem ocorrendo na região.

Montagem de viveiros comunitários
Os viveiros comunitários de mudas têm como objetivo a produção de mudas de espécies vegetais para a realização de ações de reflorestamento nas comunidades, ornamentação de propriedades, disponibilização de ração animal e de plantas medicinais.

A partir dessa iniciativa diversas espécies de árvores frutíferas foram plantadas nas comunidades e áreas de nascentes e de encostas puderam ser recuperadas.[/read]

EDUCAÇÃO, INCLUSÃO DIGITAL, CULTURA E CIDADANIACXXXXXXXXXXXXXXXXXX

A dimensão educativa, especialmente as diretrizes da Educação Popular, é percebida como um elemento estruturante e que atravessa todas as iniciativas de reaplicação e/ou desenvolvimento de tecnologias sociais nas comunidades.

[read more=”Leia mais” less=”Recolher”]Nesse sentido, busca-se fomentar a autonomia e a autogestão das organizações locais na sustentabilidade dos projetos e ações implantadas.

As atividades de formação, qualificação profissional, assessorias e discussão de temas relacionados à cidadania utilizam, sobretudo, a infraestrutura dos telecentros instalados nas comunidades.

Telecentros e educação à distância
Muitas comunidades da Rede possuem telecentros instalados. Esta ação foi possível graças a uma parceria entre o COEP e o Programa Governo Eletrônico – Sistema de Atendimento ao Cidadão – Gesac, do Ministério das Comunicações, e se insere no escopo das iniciativas governamentais compreendidas no âmbito da inclusão digital. Os equipamentos e o acesso à internet, possibilitados por esta parceria, são importantes para a implantação dos demais eixos de atuação do COEP no Semiárido.

A partir da utilização da infraestrutura dos telecentros nas comunidades, ao longo de sua trajetória, o Programa investiu em ferramentas e metodologias de educação a distância para realização de oficinas, cursos e demais atividades de formação e articulação de experiências. Foi desenvolvido o Sistema de Mídias e Educação – SIME (www.comunidadescoep.org.br/sime), reunindo conteúdos online sobre temas relativos ao associativismo comunitário, direitos humanos, geração de trabalho e renda, meio ambiente, agroecologia, saúde e outros.

A utilização dos telecentros é bastante diversificada e demonstra como a democratização no acesso a tecnologias de informação permite ampliar a participação social dos moradores das comunidades e assentamentos rurais, assim como a potencialização e integração entre as tecnologias sociais implantadas. São destacados, de forma positiva, pelos participantes do Programa, uma melhoria nos sistemas locais de ensino, através do apoio aos professores no planejamento de suas aulas e do acesso aos materiais educativos disponibilizados; a utilização destes espaços pelos alunos para realização de pesquisas e atividades pedagógicas complementares; o acesso a cursos de educação a distância e qualificação profissional, para professores que residem nos locais.

Esta tecnologia também vem permitindo a aprovação de muitos jovens em cursos de nível superior em universidades públicas da região, graças à possibilidade de obter informações e acompanhar o andamento de processos seletivos, sobretudo, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Os jovens também têm um envolvimento maior nas iniciativas de gestão do espaço dos telecentros, inserindo-se em atividades de monitoria, planejamento de ações a serem desenvolvidas e na busca de parcerias para realização de cursos e oficinas.

Os telecentros também são utilizados por agricultores para consultar cotações de produtos, os quais conseguem obter melhores preços em negociações para venda das safras; organizar planilhas de controle financeiro de produções; regularizar e emitir documentos.

Comunicação comunitária e patrimônio cultural
Recentemente, também tem sido possível observar um interesse da juventude em se dedicar a iniciativas de produção audiovisual, a partir da utilização de diferentes linguagens (produção de blogs, informativos, vídeos, fotografias) e do uso de ferramentas simples como celulares e câmeras digitais. Esse trabalho tem possibilitado ampliar a visibilidade sobre aspectos da vida cotidiana e de elementos de identidade, que caracterizam os modos de vida e de trabalho praticados dessas comunidades rurais.

Grupo de discussão nas redes sociais
As redes sociais (Facebook, WhatsApp, minifóruns do Portal Mobilizadores) têm exercido um papel fundamental na mobilização e articulação dos jovens das comunidades rurais. Tendo em vista a abrangência territorial do Programa e a diversidade de ações implantadas, as tecnologias de informação e comunicação abrem novas perspectivas para a produção e compartilhamento de conhecimento e inovação, a partir do acompanhamento das experiências práticas desenvolvidas nas comunidades, e elevam o grau de interatividade e de participação social, sobretudo da juventude.

Programa Universidades Cidadãs
Outra iniciativa importante, neste eixo, diz respeito à criação do Programa Universidades Cidadãs, através de um termo de cooperação estabelecido entre o COEP e seis instituições de ensino superior da região, são elas: Universidade Federal do Piauí – UFPI, Universidade Regional do Cariri – Urca, Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, Universidade Federal de Campina Grande – UFCG, Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE e Universidade Federal de Sergipe – UFS. O Programa obteve financiamento do CNPQ para o desenvolvimento de atividades de assessoria, oficinas e cursos nas comunidades do Semiárido, a partir da composição de equipes interdisciplinares, envolvendo professores e estudantes universitários. Essa iniciativa demonstra resultados relevantes não apenas nas atividades junto com as comunidades, mas na democratização do acesso e produção de conhecimento nas universidades. O Programa tem impactos na formação dos estudantes universitários, que ao se envolvem com o trabalho nas comunidades e assentamentos, entram em contato com os contextos socioeconômicos e as necessidades das famílias e grupos apoiados, articulando conhecimento teórico e prático; na indução de reformas nas instituições de ensino, ao promover reflexões, produção acadêmica, cursos e pesquisas que dialoguam com as necessidades e perspectivas de desenvolvimento das comunidades envolvidas; na criação de métodos e materiais pedagógicos para processos formativos de grupos e famílias apoiadas.

Minibibliotecas comunitárias
Através de uma parceria com o programa Arca das Letras, do Ministério de Desenvolvimento Agrário, foram instaladas, nos espaços dos telecentros e de associações de moradores, minibibliotecas comunitárias. Cada comunidade recebeu um acervo de 200 títulos, nas áreas de literatura e cidadania, além de livros didáticos e de conteúdo técnico específi co para as áreas rurais, selecionados conforme sugestões dos moradores.

O Programa também capacitou Agentes de Leitura, indicados pelas comunidades, para a manutenção dos acervos, realização de empréstimos e de atividades de incentivo à leitura.

Os moradores destacam que esta iniciativa viabilizou a implantação dos primeiros espaços de leitura e de acesso a livros nas comunidades, contribuindo de forma decisiva para a melhoria na aprendizagem dos alunos e no estabelecimento de diferentes formas de cooperação e apoio pedagógico às escolas localizadas nestes territórios.

Em algumas comunidades foram estabelecidas iniciativas posteriores para a ampliação destes acervos, através de doações e parcerias com órgãos municipais e estaduais.

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Textos de autoria de Ana Paula Varanda – extraídos da publicação Programa Comunidades Semiárido, tecnologias sociais e organização comunitária para a transformação social.

Fotos: Marcelo Valle.

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